A grave crise que se instala no Brasil

Diante da gravidade da crise que se instala no Brasil, a coordenação da Consulta Popular preparou, em 15 de janeiro, a seguinte nota para ser debatida entre todos os militantes

A grave crise que se instala no Brasil 

1 – É extremamente grave a crise que se instala no país. O modelo econômico faliu. As elites não têm clareza de qual caminho seguir. O presidente da República, recém-eleito, é um líder enfraquecido. A base política governista está em processo de desarticulação. Os governadores dos Estados, mesmo os conservadores, reconhecem uma situação de ingovernabilidade. Os cães de guarda do neoliberalismo na mídia estão perplexos. 

2 – No momento, dia 15 de janeiro, o governo desistiu de governar. O presidente da República se retirou para um sítio. O ministro da Fazenda nada fez e diz coisas sem nexo. O presidente do Banco Central pediu demissão, sendo acompanhado por um importante diretor do mesmo órgão, que não quis permanecer no cargo na iminência de uma crise bancária. Não há mais alternativas coerentes de política econômica. Todas as medidas anunciadas, como a tardia desvalorização do real, são inócuas ou agravam o quadro. O acordo recém-assinado com o FMI terá que ser renegociado a curto prazo, em bases políticas, pois suas metas “técnicas” já foram inviabilizadas.  Apenas ontem, o país perdeu 1,7 bilhão de dólares em suas reservas, num movimento de fuga que pode tornar-se descontrolado.

3 – Falta apenas um componente: o povo ainda não percebeu com clareza a gravidade da situação, pois os principais efeitos da crise econômica ainda não desabaram sobre ele. Em pouco tempo isso ocorrerá. Estará, então, perfeitamente caracterizado o estelionato eleitoral ocorrido em outubro do ano passado. Um cenário político novo surgirá no Brasil.

4 – O governo não poderá sustentar-se com sua composição atual. O problema relevante, no momento, é saber como ele será substituído e o que virá em seu lugar. É provável que o próprio presidente convoque um governo de “união nacional”, admitindo alterações profundas em seu ministério, que passaria a incluir representantes da burguesia descontente e da oposição. Tentaria, com isso, ganhar legitimidade política para pedir ao povo que aceite os sacrifícios que virão.

5 – Para nós, é decisivo que o povo e seus aliados venham a ser os atores centrais da crise. É preciso, pois, desde já:

A) Esclarecer a militância — de todos os lugares e de todos os movimentos — sobre a gravidade deste momento e sobre a profunda alteração política que está a caminho, para que ela se capacite a mobilizar o povo rapidamente, quando os efeitos mais dramáticos da crise irromperem  na vida de milhões de pessoas. 

B) Intervir energicamente nos pontos da sociedade em que há movimentos em curso, principalmente aqueles com potencial de sinalização para todo o país, como o ABC paulista. A passeata dos metalúrgicos, em apoio à luta da Ford, deve se transformar num ato unitário de grandes proporções, atraindo gente de todos os movimentos. Bandeiras do Brasil e dos movimentos devem se multiplicar; canções como Ordem e Progresso devem se massificar; panfletos, jornais, boletins e programas de rádio devem integrar um grande esforço de informação e mobilização. Onde temos bases mais organizadas, como nos acampamentos da Reforma Agrária, novas marchas devem ser preparadas, para, no momento oportuno, mobilizarmos o país por baixo. Outros segmentos, como desempregados, sem teto e estudantes, devem ser convocados a se integrar nelas.

C) Imaginar formas de luta adequadas a cada realidade local.

D) Desenvolver intensa articulação com nossos aliados, como bases do PT e dos demais partidos de esquerda, governos estaduais e municipais progressistas, entidades da sociedade civil, igrejas etc. Buscar, desde já, o diálogo com lideranças oposicionistas cujo posicionamento possa vir ser relevante no desenlace da crise.

E) Apresentar um conjunto simples de medidas, não só de caráter técnico, mas também político, que possa ser transformado numa plataforma mínima anticrise. Esse conjunto deve ser realista, porém suficientemente radical para não permitir uma solução simples por cima. Devemos afirmar com clareza que temos alternativas e nos propormos a governar o Brasil. É hora de contrapor agudamente, de um lado, a grandeza a governar o Brasil e a esperança que mora no inconsciente do nosso povo, e do outro, cenário de humilhação e desemprego a que fomos levados.

6 – Não está afastada a hipótese de que, em algumas semanas, possamos começar movimentos que defendam abertamente a queda do presidente estelionatário. Sua figura deve ser um alvo fixo. Devemos massificar — em faixas, discursos e publicações — a alcunha “Fernando Henrique Silvério dos Reis Cardoso”, associando sua imagem à do traidor da Inconfidência Mineira.

Companheiros

Pedimos a todos que debatam este comunicado e se preparem para a luta que virá. 

É hora de defendermos nossa Pátria. Nosso povo. Nossa Nação.

Coordenação Nacional da Consulta Popular

São Paulo, 15 de janeiro de 1999

A grave crise que se instala no Brasil

Diante da gravidade da crise que se instala no Brasil, a coordenação da Consulta Popular preparou, em 15 de janeiro, a seguinte nota para ser debatida entre todos os militantes

A grave crise que se instala no Brasil 

1 – É extremamente grave a crise que se instala no país. O modelo econômico faliu. As elites não têm clareza de qual caminho seguir. O presidente da República, recém-eleito, é um líder enfraquecido. A base política governista está em processo de desarticulação. Os governadores dos Estados, mesmo os conservadores, reconhecem uma situação de ingovernabilidade. Os cães de guarda do neoliberalismo na mídia estão perplexos. 

2 – No momento, dia 15 de janeiro, o governo desistiu de governar. O presidente da República se retirou para um sítio. O ministro da Fazenda nada fez e diz coisas sem nexo. O presidente do Banco Central pediu demissão, sendo acompanhado por um importante diretor do mesmo órgão, que não quis permanecer no cargo na iminência de uma crise bancária. Não há mais alternativas coerentes de política econômica. Todas as medidas anunciadas, como a tardia desvalorização do real, são inócuas ou agravam o quadro. O acordo recém-assinado com o FMI terá que ser renegociado a curto prazo, em bases políticas, pois suas metas “técnicas” já foram inviabilizadas.  Apenas ontem, o país perdeu 1,7 bilhão de dólares em suas reservas, num movimento de fuga que pode tornar-se descontrolado.

3 – Falta apenas um componente: o povo ainda não percebeu com clareza a gravidade da situação, pois os principais efeitos da crise econômica ainda não desabaram sobre ele. Em pouco tempo isso ocorrerá. Estará, então, perfeitamente caracterizado o estelionato eleitoral ocorrido em outubro do ano passado. Um cenário político novo surgirá no Brasil.

4 – O governo não poderá sustentar-se com sua composição atual. O problema relevante, no momento, é saber como ele será substituído e o que virá em seu lugar. É provável que o próprio presidente convoque um governo de “união nacional”, admitindo alterações profundas em seu ministério, que passaria a incluir representantes da burguesia descontente e da oposição. Tentaria, com isso, ganhar legitimidade política para pedir ao povo que aceite os sacrifícios que virão.

5 – Para nós, é decisivo que o povo e seus aliados venham a ser os atores centrais da crise. É preciso, pois, desde já:

A) Esclarecer a militância — de todos os lugares e de todos os movimentos — sobre a gravidade deste momento e sobre a profunda alteração política que está a caminho, para que ela se capacite a mobilizar o povo rapidamente, quando os efeitos mais dramáticos da crise irromperem  na vida de milhões de pessoas. 

B) Intervir energicamente nos pontos da sociedade em que há movimentos em curso, principalmente aqueles com potencial de sinalização para todo o país, como o ABC paulista. A passeata dos metalúrgicos, em apoio à luta da Ford, deve se transformar num ato unitário de grandes proporções, atraindo gente de todos os movimentos. Bandeiras do Brasil e dos movimentos devem se multiplicar; canções como Ordem e Progresso devem se massificar; panfletos, jornais, boletins e programas de rádio devem integrar um grande esforço de informação e mobilização. Onde temos bases mais organizadas, como nos acampamentos da Reforma Agrária, novas marchas devem ser preparadas, para, no momento oportuno, mobilizarmos o país por baixo. Outros segmentos, como desempregados, sem teto e estudantes, devem ser convocados a se integrar nelas.

C) Imaginar formas de luta adequadas a cada realidade local.

D) Desenvolver intensa articulação com nossos aliados, como bases do PT e dos demais partidos de esquerda, governos estaduais e municipais progressistas, entidades da sociedade civil, igrejas etc. Buscar, desde já, o diálogo com lideranças oposicionistas cujo posicionamento possa vir ser relevante no desenlace da crise.

E) Apresentar um conjunto simples de medidas, não só de caráter técnico, mas também político, que possa ser transformado numa plataforma mínima anticrise. Esse conjunto deve ser realista, porém suficientemente radical para não permitir uma solução simples por cima. Devemos afirmar com clareza que temos alternativas e nos propormos a governar o Brasil. É hora de contrapor agudamente, de um lado, a grandeza a governar o Brasil e a esperança que mora no inconsciente do nosso povo, e do outro, cenário de humilhação e desemprego a que fomos levados.

6 – Não está afastada a hipótese de que, em algumas semanas, possamos começar movimentos que defendam abertamente a queda do presidente estelionatário. Sua figura deve ser um alvo fixo. Devemos massificar — em faixas, discursos e publicações — a alcunha “Fernando Henrique Silvério dos Reis Cardoso”, associando sua imagem à do traidor da Inconfidência Mineira.

Companheiros

Pedimos a todos que debatam este comunicado e se preparem para a luta que virá. 

É hora de defendermos nossa Pátria. Nosso povo. Nossa Nação.

Coordenação Nacional da Consulta Popular

São Paulo, 15 de janeiro de 1999

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