Aos partidos e organizações de esquerda, aos movimentos populares, ao movimento sindical e à toda a militância de Pernambuco.
O Brasil vive uma crise de destino que atinge todas e todos que sonham com uma sociedade mais justa e igualitária. A combinação de medidas ultraliberais com um movimento neofascista e seu representante no governo federal agravam tal crise ao ameaçar a já frágil democracia duramente conquistada pelo povo brasileiro. O relativo distanciamento entre os partidos e organizações socialistas, de um lado, e a classe trabalhadora, de outro, sugere um enorme desafio para a esquerda brasileira. Neste momento, os debates no interior das organizações de esquerda são intensos e difíceis. Divergências que poderiam ser contornadas em nome da unidade surgem, agora, como questões obrigatórias. Daí que a atual crise política implique, também, em um processo de reorganização da esquerda brasileira que se dá em condições extremamente desfavoráveis, não obstante as perspectivas abertas com as eleições em 2022.
A Consulta Popular em breve completará 25 anos. Nossa trajetória, mesmo com todas as suas debilidades, contém um forte componente de originalidade histórica. Nascemos de um conjunto de movimentos populares que ousaram debater projeto de país durante a hegemonia neoliberal dos anos 1990. Essa origem nos legou a virtude de estarmos umbilicalmente ligados à prática, mas nos trouxe também um desafio histórico novo: construir uma estratégia comum dentro da diversidade dos movimentos populares, pastorais sociais e intelectuais de diversas matizes que constituíram esse polo.
Ao realizarmos nossa última Assembleia Nacional, em 2017, talvez nos tenha escapado que a derrota estratégica sofrida pelos trabalhadores produziria fortes efeitos, também, no interior da nossa organização. As nossas contradições, preexistentes à crise que vivenciamos, tornaram-se muito mais agudas na medida que a situação política geral foi se tornando menos favorável. Fenômeno semelhante tem ocorrido em todas as organizações de esquerda do Brasil, cada qual com suas características específicas.
Em nosso caso, tais contradições levaram à dissidência de um contingente expressivo de companheiros e companheiras da Consulta Popular.
Nossas tensões internas haviam sido canalizadas para a construção de um novo momento congressual, a VI Assembleia Nacional Luiz Gama, cuja construção explicitou as principais divergências conformando duas diferentes teses apresentadas à nossa militância: a tese “Um passo à frente na Consulta Popular” e a tese “Somos a Consulta Popular”.
No último dia 14 de dezembro, numa reunião online convocada unilateralmente pelos membros da Direção Nacional da Consulta Popular que vinham assinando a Tese “Um Passo”, foi lida uma carta na qual anunciavam uma “divisão” da Consulta Popular. Também anunciaram que estaria dissolvida a Direção Nacional. Para surpresa geral, sequer foi permitida qualquer manifestação. A reunião foi declarada encerrada e o aplicativo foi fechado abruptamente. No mesmo dia e nos que se seguiram, nas diversas regiões, os signatários da tese “Um Passo” deixaram as instâncias da organização sem nenhum diálogo com a militância com quem, antes, caminhavam ombro a ombro.
Em Pernambuco tal processo não foi menos abrupto ou menos desrespeitoso com a história que construímos juntos e juntas. É importante resgatar as determinações políticas presentes na atual ruptura de valorosos e valorosas companheiras com nossa organização. Nossas diferenças se dividiram em três eixos principais que, não à toa, são também os principais desafios da esquerda brasileira: a análise da correlação de forças e da tática a ser adotada na luta contra o neofascismo; o caráter da organização política, seus centros decisórios, concentração e coordenação de suas forças; e, não menos importante, o horizonte estratégico para o qual dirigimos nossos esforços.
Entendemos que são esses os principais desafios colocados para toda a esquerda brasileira. Era esse o debate que fazíamos até a decisão unilateral e repentina dos membros da tese “Um passo” abandonarem as instâncias da nossa organização. A cisão das organizações políticas, por mais difíceis que sejam nossos debates, não abre caminho para a solução de nenhum dos problemas listados acima. Ao contrário, enfraquece a unidade e limita a possibilidade de sínteses superiores que nos façam avançar na luta contra o inimigo principal.
Este não é o espaço de rebater as insinuações e críticas que vêm sendo veiculadas pelos companheiros e companheiras da “Um passo”. Muito menos nos cabe ceder ao argumento que associa a verdade ou a correção de uma ação ao critério de maioria numérica. A Consulta Popular nunca foi uma organização voltada a estimular disputas de protagonismo no interior da esquerda, nunca se voltou a hostilizar agrupamentos que se encontram do mesmo lado da barricada, nunca estimulou, reivindicou e muito menos comemorou divisões no seio da esquerda brasileira. Não seria diferente em relação às companheiras e companheiros que até ontem estavam conosco e que agora escolheram trilhar outro caminho.
Aos companheiros e companheiras das diversas organizações políticas com quem compartilhamos lutas em Pernambuco, à militância dos diversos movimentos populares em nosso estado, às pastorais sociais e ao movimento sindical, o que temos a dizer é que estaremos onde sempre estivemos: afirmando o compromisso com a unidade da esquerda brasileira, da construção pelo exemplo, da centralidade da organização popular e dos movimentos de massa. Seguiremos sendo a Consulta Popular, sem subtítulos, sem disputa de protagonismo e sem rancores. Convidamos a todas as organizações de esquerda a travarmos um diálogo sincero a respeito das táticas de luta para os embates estratégicos que nos aguardam no ano de 2022.
É pelo compromisso com a classe trabalhadora que não renunciaremos ao debate estratégico em nossa organização e com o conjunto da esquerda. É pelo compromisso com o povo brasileiro que seguiremos construindo nossa VI Assembleia Nacional homenageando a coragem de Luís Gama. É pelo compromisso com tantos e tantas lutadores e lutadoras que nos antecederam que seguiremos construindo a Consulta Popular.
Pátria Livre! Venceremos!
Direção Estadual da Consulta Popular em Pernambuco
Recife, 21 de dezembro de 2021

