A Argentina, país vizinho, com quem o Brasil mantém laços econômicos e culturais, uma vez que é o terceiro parceiro comercial do Brasil, viverá no segundo turno das eleições, no dia 19 de novembro, uma encruzilhada histórica, em um pleito que opõe o peronista moderado Sergio Massa e, do outro lado, o neofascista Javier Milei. As pesquisas são diversas e mostram um cenário de empate técnico até o momento, com leve vantagem para Massa.
Em 2015, no marco da onda que buscou restaurar o programa neoliberal nos países da América Latina, caso de Honduras, Paraguai, Brasil, por meio de golpes de Estado; e Equador e Argentina, pela via eleitoral, nesse contexto se deu a chegada do neoliberal Maurício Macri ao governo argentino.
Essa restauração neoliberal representou também a derrota do peronismo com vínculo de massas de Cristina Kirchner que, no seu governo, havia tomado uma série de medidas progressistas, combatido os meios empresariais de comunicação, as frações do agronegócio ligadas ao capital internacional, e havia aplicado políticas sociais.
Após a vitória de Macri, as condições de vida pioraram drasticamente. O legado de Macri, persistente até hoje, foi o desemprego, o subemprego, a desindustrialização e a fome, que atingiu os trabalhadores fortemente. Ao lado disso, a dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI) cresceu e tornou-se uma das mais altas do mundo, sendo uma amarra à soberania do país.
A maior parte desse montante da dívida é em dólares, ligado a grandes fundos internacionais e torna o país frágil e sujeito à rápida fuga de capitais. Uma situação que, de algum modo, arrasta-se desde a crise de 2001, que gerou explosões sociais e derrubou, à época, três presidentes.
Em 2019, a vitória de Alberto Fernández representaria uma virada de página em relação ao período Macri. Porém, aqui fica registrado um dos aprendizados para a esquerda latino-americana no atual período histórico: no contexto de aprofundamento da crise, apesar das duras críticas de Cristina Kirchner, Fernández manteve o ajuste fiscal, em 2020 e 2021. Além disso, a inflação alcançou 130% ao ano e a taxa de desemprego aumentou.
No contexto de especulação realizada com o preço dos itens básicos de consumo, o que gera crescente descontentamento em amplos setores, a desaprovação do governo cresceu já nos primeiros anos.
Nesse cenário, de insatisfação de setores médios, de camadas dos trabalhadores, e a partir das tentativas de desestabilização por parte da burguesia argentina associada ao imperialismo, Javier Milei emerge como figura antissistêmica, no marco da crise de representação do que eram, até então, as duas principais forças políticas na Argentina – o peronismo e o liberalismo de Macri -, no contexto também da ascensão da extrema direita no continente e no plano mundial, a exemplo do que ocorreu com Bolsonaro no Brasil.
Milei radicaliza nas propostas neoliberais e contrárias à soberania, ao propor dolarização do país, a privatização do Banco Central e de empresas públicas, entre outras medidas. Porém, o desenrolar da sua campanha na Argentina tem revelado que Milei é uma figura nefasta e que defende medidas descoladas da realidade, como quando aponta ruptura com a parceria comercial da Argentina com a China e com o Mercosul, por exemplo –, gerando críticas e desconfianças mesmo na burguesia e em setores financeiros da Argentina.
Embora Sergio Massa, atual ministro da economia, não represente um setor do peronismo ligado às organizações populares, é fundamental para as forças populares elegê-lo e derrotar o neofascista e ultraliberal Milei, derrotando também, nas urnas e nas ruas, o programa neoliberal. Aproveitando inclusive a divisão entre os partidos antipopulares, uma vez que parlamentares eleitos do partido de Milei se recusam a aceitar o apoio de Macri no segundo turno.
Por sua vez, na reta final da campanha, a campanha de Massa acertou ao elencar os temas que tocam no interesse dos trabalhadores argentinos, que possuem importante nível de organização sindical, caso da geração de empregos, da produção industrial, da necessidade de impedir a corrosão da renda dos trabalhadores argentinos, entre outros assuntos enfatizados por Massa. Recentemente, ele também valorizou o mercado interno e a necessidade de controle dos preços dos combustíveis, diante de escala especulativa, o que gerou embates contra veículos da mídia empresarial.
A Consulta Popular, dentro do princípio do internacionalismo, aponta a necessidade de vitória de Sergio Massa nas eleições e derrota de Milei, para justamente as organizações populares e sindicais argentinas terem condições para avançar em suas lutas, no marco de uma conjuntura favorável para a integração latinoamericana, para aproximação com o bloco do Brics, contrapondo assim a influência do imperialismo dos EUA em nosso continente.
No entanto, a partir dessa vitória, se faz necessário o fortalecimento das organizações populares e a necessária derrota do neofascismo e do neoliberalismo nas ruas.
10 de novembro de 2023

