Juventude e luta de classes – Pelo direito de ser jovem!

Nana Mainardi*
Lucas Henrique Araujo (Cerrado)*

Este texto é fruto não apenas do esforço de elaboração dos autores, mas também do acúmulo de debates, reflexões e experiências vividas pela juventude da Consulta Popular. Ao longo dos anos, nossas discussões coletivas têm buscado compreender as contradições e os desafios enfrentados pela juventude trabalhadora, sempre com o objetivo de contribuir para a construção de um projeto popular para o Brasil.

Aqui, procuramos sintetizar parte desse processo, trazendo à tona questões fundamentais sobre o significado da juventude, sua relação com a luta de classes e o papel transformador que ela pode desempenhar. Esperamos que este trabalho sirva não apenas como uma reflexão, mas também como um incentivo à organização e à luta pela tomada do poder do Estado e pela construção do socialismo.


“Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética”, provocou o comandante Che Guevara. Mas, o que é ser jovem? Se restringe a fatores biológicos, em que indivíduos compartilham experiências similares a partir de uma determinada faixa etária? Ou trata-se de uma questão puramente sociohistórica? O tema não tem uma resposta simples, mas é possível compreendê-lo justamente através desta relação: se a juventude é uma fase que leva em conta fatores biológicos, ligados ao desenvolvimento das capacidades humanas, da mesma forma pode ser compreendida a partir de sua construção social ao longo do tempo.

Como se constituiu a ideia de juventude?

O significado de “juventude” sofreu diversas mudanças ao longo da história. Surge na Roma Antiga, concebido apenas para príncipes e nobres. Nesse contexto histórico, escravos e plebeus, por exemplo, não tinham sequer a possibilidade de vivenciar um momento que
estivesse entre a infância e a vida adulta. À mudança de cada época, a juventude foi representada por diversas classificações, sempre definidas a partir de uma faixa etária.

À medida que os significados e a compreensão das ‘fases da vida’ se tornaram mais complexos, surgiu também a necessidade de ressaltar as diferenças entre essas fases. Como uma tentativa de dar conta da amplitude dessas transformações, o termo ‘adolescência’ foi cunhado, aparecendo pela primeira vez no século XIX. Essa classificação representa o início do reconhecimento do indivíduo, nesta etapa da vida, enquanto sujeito possuidor de direitos. Trata-se de uma fase em que a criança experimenta um estranhamento em relação aos familiares, diante do mundo e de seu próprio percurso. Esse ‘estranhamento’ marca um dos primeiros momentos em que o indivíduo passa a questionar a autoridade parental, estabelecida desde a infância. Nessa transição, ao buscar sua própria identidade, o sujeito passa a refletir criticamente sobre os valores, as crenças e a cultura transmitidos pela família, iniciando um processo de autonomia e construção do seu próprio caminho.

Com o desenvolvimento do capitalismo, a “juventude”, enquanto “fase”, adquire um papel central no processo de formação do indivíduo. Nesse contexto, ela representa não apenas a saída da infância e da adolescência, mas também um período crucial de preparação para a vida adulta. A partir de então, espera-se que o sujeito aprenda como desempenhar suas funções no mundo do trabalho e como portar-se como indivíduo no sistema capitalista. No entanto, historicamente, as classes dominadas não tiveram direito de efetivamente vivenciar esse momento. Apenas muito recentemente esse ensejo de formação e preparação para o mercado de trabalho foi possibilitado a uma maior camada da população.

A juventude enquanto um direito

Em todo modo de produção há uma contradição entre as classes dominantes e as classes dominadas. No capitalismo, essa contradição se revela entre o capital e o trabalho, expressa na luta entre aqueles que detêm os meios de produção e aqueles que, sem esses meios, são forçados a vender sua força de trabalho. Neste sentido, foram as lutas organizadas pela classe trabalhadora que possibilitaram que a juventude fosse um direito estendido para além da burguesia. Tais lutas não se limitaram à conquista dos aspectos relacionados à formação e preparação profissional, mas também abarcavam demandas sobre diferentes necessidades humanas e suas complexidades. Surgiram, a partir daí, diversas reivindicações da juventude da classe trabalhadora pelo acesso a direitos fundamentais, como educação, cultura e saúde, isto é, de vivenciar e experienciar a juventude de maneira plena e digna.

Dessa forma, a juventude se afirma como um direito da classe trabalhadora. Um direito que está sempre se alterando a depender da correlação de forças. Em determinados cenários, quando o capital avança e a luta dos trabalhadores retrocede, este direito também retrocede. Não à toa, são nesses momentos em que o acesso à educação e à cultura voltam a ser privilégios da classe burguesa: quando aumentam os índices de trabalho infantil, a violência contra os jovens negros nas periferias, a precarização do trabalho e os cortes nas universidades públicas. Noutras palavras, para a juventude da classe trabalhadora, o cenário de retrocessos implica a negação do direito de ser jovem – experienciar de forma plena todas as possibilidades e oportunidades de seu desenvolvimento humano, intelectual e profissional. Por isso, é somente quando a luta dos trabalhadores avança, de maneira geral, que o direito e as condições de vida da juventude também avançam, em particular.

Uma etapa de transformação

Enquanto um direito, a juventude é também uma etapa da vida. Etapa em que o jovem trabalhador – ainda marcado pelo estranhamento e questionamento que emergiram na adolescência – direciona essa inquietação para o mundo ao seu redor. Ao confrontar-se com a realidade, percebe-se sem condições de viver plenamente esse direito, de ser livre e perseguir seus sonhos – como tantas vezes lhe fora prometido. Dessa contradição, existe um grande potencial de indignação.

A percepção das desigualdades, a indignação e a revolta são características frequentemente associadas à juventude, e fazem sentido quando observamos seu papel central em diversos processos históricos: em Cuba, Rússia, Nicarágua e China, por exemplo, os jovens foram protagonistas nas lutas revolucionárias, organizando seus pares e assumindo tarefas decisivas nas lutas da classe trabalhadora pela tomada do poder do Estado. No entanto, esse potencial transformador não é algo inerente, mas resultado de um campo em disputa.

A história nos mostra como a juventude pode ser mobilizada tanto para projetos emancipatórios quanto reacionários. Na Alemanha nazista, Hitler e seus seguidores instrumentalizaram o engajamento dos jovens a partir da “Juventude Hitlerista”, uma organização paramilitar que alistava crianças e adolescentes de forma obrigatória e que formou líderes de um dos movimentos mais reacionários da história. Paralelamente, no Brasil
contemporâneo, vemos a juventude sendo disputada pelo bolsonarismo, que mobiliza jovens em manifestações reacionárias, como as que defendem a volta da ditadura militar, incentivando sua organização em clubes de tiro (CACs) e células neonazistas.

Ambos os exemplos, embora distintos, emergem em contextos de crise do capitalismo. Nessas conjunturas, a burguesia, ao buscar recuperar suas taxas de lucro, retira direitos da classe trabalhadora e fortalece mobilizações violentas. Com as organizações de esquerda fragilizadas, o fascismo se apresenta como uma alternativa aparentemente anti-sistêmica, capaz de atrair e cooptar a juventude.

A unidade da juventude da classe trabalhadora

Neste contexto de disputa, é fundamental compreender que o termo “juventude” não pode ser considerado algo abstrato. Como apontou Lênin em “As Tarefas Revolucionárias da Juventude”, este setor social reflete as contradições e divisões presentes em nossa sociedade. No capitalismo moderno, a juventude, embora seja uma fase crucial para a formação humana, não é assegurada como um direito universal. Pelo contrário, sua vivência plena e digna é constantemente negada à classe trabalhadora, que só conquistou acesso a ela através de lutas e transformações sociais.

Se o termo “juventudes”, no plural – muito difundido hoje –, parece simbolizar a diversidade dessa fase da vida, ele desconsidera as contradições estruturais da sociedade. Apesar da diversidade, é a condição comum de classe, marcada pela impossibilidade de viver dignamente no capitalismo, que unifica a juventude trabalhadora. Portanto, pluralizar sem compreender o viés de classe simplifica a reflexão sobre qual juventude estamos falando.

Essa reflexão sobre a unidade da juventude trabalhadora não pode ignorar as diferentes formas de opressão que atingem grupos específicos dentro da própria classe. A luta racial, por exemplo, é fundamental para compreender como a opressão se manifesta de maneira particular no capitalismo. A juventude negra, que enfrenta o extermínio e a precarização de forma mais intensa, precisa ter suas demandas reconhecidas. No entanto, é crucial destacar que, embora o neoliberalismo e o capitalismo tentem reduzir essas lutas a questões identitárias ou individuais, suas raízes são estruturais e estão profundamente conectadas à luta de classes. A superação do racismo e de outras formas de opressão só será possível em conjunto com a superação do próprio sistema capitalista. Assim, a luta da juventude negra, assim como a de outros setores oprimidos, deve estar intrinsecamente ligada à luta mais ampla da classe trabalhadora pela transformação radical da sociedade. Só através dessa unidade é que a verdadeira emancipação será alcançada.

Só a luta muda a vida: Pelo direito de ser jovem!

A atual correlação de forças, marcada pela derrota estratégica iniciada em 2016 e intensificada pela ascensão do neofascismo, impõe desafios profundos à juventude trabalhadora. A militarização e a terceirização das escolas avançam em diversos estados, impondo uma disciplina rígida, preconizando e precarizando o ambiente educacional, o que limita a liberdade e o desenvolvimento dos estudantes. A criminalização de manifestações culturais, como o funk e o rap, atinge os jovens de periferia, enquanto a falta de investimentos em infraestrutura e programas culturais perpetua a exclusão. A precarização dos postos de trabalho, com a expansão de contratos temporários e sem direitos, atinge diretamente a juventude, que se vê obrigada a aceitar empregos instáveis e mal remunerados. Paralelamente, o extermínio da juventude negra, com dados que mostram que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil, evidencia as contradições de um sistema que nega direitos básicos, incluindo o direito à vida e o direito de existir, e reproduz desigualdades.

Diante desse cenário, é evidente que a luta por direitos dentro dos marcos do capitalismo não é suficiente. O próprio sistema que gera essas desigualdades e opressões não pode ser a solução para superá-las. A precarização da vida da juventude trabalhadora é resultado direto da lógica excludente e exploratória do capitalismo, que prioriza o lucro em detrimento da dignidade humana, transformando nossas vidas em mercadoria. Essa desigualdade escancara as contradições de um sistema que, mesmo quando oferece oportunidades, o faz de forma restrita, incapaz de assegurar uma vida plena para a juventude como um todo.

Assim, a juventude da classe trabalhadora, ao lutar por seus direitos, não deve se limitar a buscar melhores condições de vida no capitalismo, mas sim vincular essa luta à construção das bases para uma sociedade radicalmente diferente. A unidade na luta, a organização coletiva e a consciência de classe são os pilares que nos permitirão transformar a indignação em ação revolucionária. Como nos ensinou Lênin, a juventude não pode ser neutra: ela está sempre em disputa, e cabe a nós, a juventude trabalhadora, garantir que essa disputa seja vencida pelo projeto de emancipação humana. Só a luta muda a vida, e é só através dela e da organização coletiva que transformaremos o presente e conquistaremos o futuro que merecemos.

*Cientistas sociais com ênfase em Sociologia (UFSCar), membros do Coletivo Zilda Xavier e do Núcleo Rosa Sundermann (São Carlos-SP)

Juventude e luta de classes – Pelo direito de ser jovem!

Nana Mainardi*
Lucas Henrique Araujo (Cerrado)*

Este texto é fruto não apenas do esforço de elaboração dos autores, mas também do acúmulo de debates, reflexões e experiências vividas pela juventude da Consulta Popular. Ao longo dos anos, nossas discussões coletivas têm buscado compreender as contradições e os desafios enfrentados pela juventude trabalhadora, sempre com o objetivo de contribuir para a construção de um projeto popular para o Brasil.

Aqui, procuramos sintetizar parte desse processo, trazendo à tona questões fundamentais sobre o significado da juventude, sua relação com a luta de classes e o papel transformador que ela pode desempenhar. Esperamos que este trabalho sirva não apenas como uma reflexão, mas também como um incentivo à organização e à luta pela tomada do poder do Estado e pela construção do socialismo.


“Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética”, provocou o comandante Che Guevara. Mas, o que é ser jovem? Se restringe a fatores biológicos, em que indivíduos compartilham experiências similares a partir de uma determinada faixa etária? Ou trata-se de uma questão puramente sociohistórica? O tema não tem uma resposta simples, mas é possível compreendê-lo justamente através desta relação: se a juventude é uma fase que leva em conta fatores biológicos, ligados ao desenvolvimento das capacidades humanas, da mesma forma pode ser compreendida a partir de sua construção social ao longo do tempo.

Como se constituiu a ideia de juventude?

O significado de “juventude” sofreu diversas mudanças ao longo da história. Surge na Roma Antiga, concebido apenas para príncipes e nobres. Nesse contexto histórico, escravos e plebeus, por exemplo, não tinham sequer a possibilidade de vivenciar um momento que
estivesse entre a infância e a vida adulta. À mudança de cada época, a juventude foi representada por diversas classificações, sempre definidas a partir de uma faixa etária.

À medida que os significados e a compreensão das ‘fases da vida’ se tornaram mais complexos, surgiu também a necessidade de ressaltar as diferenças entre essas fases. Como uma tentativa de dar conta da amplitude dessas transformações, o termo ‘adolescência’ foi cunhado, aparecendo pela primeira vez no século XIX. Essa classificação representa o início do reconhecimento do indivíduo, nesta etapa da vida, enquanto sujeito possuidor de direitos. Trata-se de uma fase em que a criança experimenta um estranhamento em relação aos familiares, diante do mundo e de seu próprio percurso. Esse ‘estranhamento’ marca um dos primeiros momentos em que o indivíduo passa a questionar a autoridade parental, estabelecida desde a infância. Nessa transição, ao buscar sua própria identidade, o sujeito passa a refletir criticamente sobre os valores, as crenças e a cultura transmitidos pela família, iniciando um processo de autonomia e construção do seu próprio caminho.

Com o desenvolvimento do capitalismo, a “juventude”, enquanto “fase”, adquire um papel central no processo de formação do indivíduo. Nesse contexto, ela representa não apenas a saída da infância e da adolescência, mas também um período crucial de preparação para a vida adulta. A partir de então, espera-se que o sujeito aprenda como desempenhar suas funções no mundo do trabalho e como portar-se como indivíduo no sistema capitalista. No entanto, historicamente, as classes dominadas não tiveram direito de efetivamente vivenciar esse momento. Apenas muito recentemente esse ensejo de formação e preparação para o mercado de trabalho foi possibilitado a uma maior camada da população.

A juventude enquanto um direito

Em todo modo de produção há uma contradição entre as classes dominantes e as classes dominadas. No capitalismo, essa contradição se revela entre o capital e o trabalho, expressa na luta entre aqueles que detêm os meios de produção e aqueles que, sem esses meios, são forçados a vender sua força de trabalho. Neste sentido, foram as lutas organizadas pela classe trabalhadora que possibilitaram que a juventude fosse um direito estendido para além da burguesia. Tais lutas não se limitaram à conquista dos aspectos relacionados à formação e preparação profissional, mas também abarcavam demandas sobre diferentes necessidades humanas e suas complexidades. Surgiram, a partir daí, diversas reivindicações da juventude da classe trabalhadora pelo acesso a direitos fundamentais, como educação, cultura e saúde, isto é, de vivenciar e experienciar a juventude de maneira plena e digna.

Dessa forma, a juventude se afirma como um direito da classe trabalhadora. Um direito que está sempre se alterando a depender da correlação de forças. Em determinados cenários, quando o capital avança e a luta dos trabalhadores retrocede, este direito também retrocede. Não à toa, são nesses momentos em que o acesso à educação e à cultura voltam a ser privilégios da classe burguesa: quando aumentam os índices de trabalho infantil, a violência contra os jovens negros nas periferias, a precarização do trabalho e os cortes nas universidades públicas. Noutras palavras, para a juventude da classe trabalhadora, o cenário de retrocessos implica a negação do direito de ser jovem – experienciar de forma plena todas as possibilidades e oportunidades de seu desenvolvimento humano, intelectual e profissional. Por isso, é somente quando a luta dos trabalhadores avança, de maneira geral, que o direito e as condições de vida da juventude também avançam, em particular.

Uma etapa de transformação

Enquanto um direito, a juventude é também uma etapa da vida. Etapa em que o jovem trabalhador – ainda marcado pelo estranhamento e questionamento que emergiram na adolescência – direciona essa inquietação para o mundo ao seu redor. Ao confrontar-se com a realidade, percebe-se sem condições de viver plenamente esse direito, de ser livre e perseguir seus sonhos – como tantas vezes lhe fora prometido. Dessa contradição, existe um grande potencial de indignação.

A percepção das desigualdades, a indignação e a revolta são características frequentemente associadas à juventude, e fazem sentido quando observamos seu papel central em diversos processos históricos: em Cuba, Rússia, Nicarágua e China, por exemplo, os jovens foram protagonistas nas lutas revolucionárias, organizando seus pares e assumindo tarefas decisivas nas lutas da classe trabalhadora pela tomada do poder do Estado. No entanto, esse potencial transformador não é algo inerente, mas resultado de um campo em disputa.

A história nos mostra como a juventude pode ser mobilizada tanto para projetos emancipatórios quanto reacionários. Na Alemanha nazista, Hitler e seus seguidores instrumentalizaram o engajamento dos jovens a partir da “Juventude Hitlerista”, uma organização paramilitar que alistava crianças e adolescentes de forma obrigatória e que formou líderes de um dos movimentos mais reacionários da história. Paralelamente, no Brasil
contemporâneo, vemos a juventude sendo disputada pelo bolsonarismo, que mobiliza jovens em manifestações reacionárias, como as que defendem a volta da ditadura militar, incentivando sua organização em clubes de tiro (CACs) e células neonazistas.

Ambos os exemplos, embora distintos, emergem em contextos de crise do capitalismo. Nessas conjunturas, a burguesia, ao buscar recuperar suas taxas de lucro, retira direitos da classe trabalhadora e fortalece mobilizações violentas. Com as organizações de esquerda fragilizadas, o fascismo se apresenta como uma alternativa aparentemente anti-sistêmica, capaz de atrair e cooptar a juventude.

A unidade da juventude da classe trabalhadora

Neste contexto de disputa, é fundamental compreender que o termo “juventude” não pode ser considerado algo abstrato. Como apontou Lênin em “As Tarefas Revolucionárias da Juventude”, este setor social reflete as contradições e divisões presentes em nossa sociedade. No capitalismo moderno, a juventude, embora seja uma fase crucial para a formação humana, não é assegurada como um direito universal. Pelo contrário, sua vivência plena e digna é constantemente negada à classe trabalhadora, que só conquistou acesso a ela através de lutas e transformações sociais.

Se o termo “juventudes”, no plural – muito difundido hoje –, parece simbolizar a diversidade dessa fase da vida, ele desconsidera as contradições estruturais da sociedade. Apesar da diversidade, é a condição comum de classe, marcada pela impossibilidade de viver dignamente no capitalismo, que unifica a juventude trabalhadora. Portanto, pluralizar sem compreender o viés de classe simplifica a reflexão sobre qual juventude estamos falando.

Essa reflexão sobre a unidade da juventude trabalhadora não pode ignorar as diferentes formas de opressão que atingem grupos específicos dentro da própria classe. A luta racial, por exemplo, é fundamental para compreender como a opressão se manifesta de maneira particular no capitalismo. A juventude negra, que enfrenta o extermínio e a precarização de forma mais intensa, precisa ter suas demandas reconhecidas. No entanto, é crucial destacar que, embora o neoliberalismo e o capitalismo tentem reduzir essas lutas a questões identitárias ou individuais, suas raízes são estruturais e estão profundamente conectadas à luta de classes. A superação do racismo e de outras formas de opressão só será possível em conjunto com a superação do próprio sistema capitalista. Assim, a luta da juventude negra, assim como a de outros setores oprimidos, deve estar intrinsecamente ligada à luta mais ampla da classe trabalhadora pela transformação radical da sociedade. Só através dessa unidade é que a verdadeira emancipação será alcançada.

Só a luta muda a vida: Pelo direito de ser jovem!

A atual correlação de forças, marcada pela derrota estratégica iniciada em 2016 e intensificada pela ascensão do neofascismo, impõe desafios profundos à juventude trabalhadora. A militarização e a terceirização das escolas avançam em diversos estados, impondo uma disciplina rígida, preconizando e precarizando o ambiente educacional, o que limita a liberdade e o desenvolvimento dos estudantes. A criminalização de manifestações culturais, como o funk e o rap, atinge os jovens de periferia, enquanto a falta de investimentos em infraestrutura e programas culturais perpetua a exclusão. A precarização dos postos de trabalho, com a expansão de contratos temporários e sem direitos, atinge diretamente a juventude, que se vê obrigada a aceitar empregos instáveis e mal remunerados. Paralelamente, o extermínio da juventude negra, com dados que mostram que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil, evidencia as contradições de um sistema que nega direitos básicos, incluindo o direito à vida e o direito de existir, e reproduz desigualdades.

Diante desse cenário, é evidente que a luta por direitos dentro dos marcos do capitalismo não é suficiente. O próprio sistema que gera essas desigualdades e opressões não pode ser a solução para superá-las. A precarização da vida da juventude trabalhadora é resultado direto da lógica excludente e exploratória do capitalismo, que prioriza o lucro em detrimento da dignidade humana, transformando nossas vidas em mercadoria. Essa desigualdade escancara as contradições de um sistema que, mesmo quando oferece oportunidades, o faz de forma restrita, incapaz de assegurar uma vida plena para a juventude como um todo.

Assim, a juventude da classe trabalhadora, ao lutar por seus direitos, não deve se limitar a buscar melhores condições de vida no capitalismo, mas sim vincular essa luta à construção das bases para uma sociedade radicalmente diferente. A unidade na luta, a organização coletiva e a consciência de classe são os pilares que nos permitirão transformar a indignação em ação revolucionária. Como nos ensinou Lênin, a juventude não pode ser neutra: ela está sempre em disputa, e cabe a nós, a juventude trabalhadora, garantir que essa disputa seja vencida pelo projeto de emancipação humana. Só a luta muda a vida, e é só através dela e da organização coletiva que transformaremos o presente e conquistaremos o futuro que merecemos.

*Cientistas sociais com ênfase em Sociologia (UFSCar), membros do Coletivo Zilda Xavier e do Núcleo Rosa Sundermann (São Carlos-SP)

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