A centralidade das lideranças comunitárias na disputa pelas cidades

Por Jorge Edson Santos, Dalva Angélica e Kelvyn Alves Rodrigues*
Da Carta Capital

Em contextos marcados por profundas desigualdades urbanas, o papel das lideranças comunitárias se impõe como um elemento central para compreender a dinâmica das cidades brasileiras. Mais do que uma dimensão simbólica, trata-se de reconhecer a atuação estratégica dessas lideranças na construção cotidiana dos territórios, especialmente nas periferias de Aracaju, capital de Sergipe, e de tantas outras regiões do País. A experiência acumulada no Movimento Organizado de Trabalhadoras e Trabalhadores Urbanos (MOTU), em diálogo com processos formativos e práticas territoriais, revela que a liderança comunitária não nasce pronta; é construída coletivamente, no cotidiano das lutas, na mediação de conflitos e, principalmente, na capacidade de organizar o povo para intervir na realidade. Mais do que representar demandas, liderar é criar condições para que a comunidade participe ativamente da definição de seus próprios rumos.

No campo urbano, a participação popular frequentemente aparece como princípio nos planos diretores, nas políticas públicas e nos discursos institucionais. No entanto, na prática, ela ainda é limitada, fragmentada ou meramente consultiva. A realidade dos territórios demonstra que participar exige organização. Não há participação efetiva sem base social estruturada, sem espaços de decisão coletiva e sem processos formativos contínuos. Como aponta Maria da Glória Gohn, os movimentos sociais têm papel fundamental na educação política da população, pois produzem saberes, constroem identidades coletivas e ampliam a capacidade de ação dos sujeitos no espaço público. Nesse sentido, a liderança comunitária atua como mediadora entre o cotidiano da população e os processos mais amplos de disputa por direitos.

A prática organizativa, como evidenciado nos processos formativos do MOTU, reforça que o trabalho de base é o elemento estruturante da ação popular. Reuniões, assembleias, visitas porta a porta e atividades comunitárias não são apenas instrumentos técnicos; são espaços de construção política. Saber organizar uma reunião, por exemplo, vai muito além de reunir pessoas em um mesmo espaço. Trata-se de definir objetivos claros, construir uma pauta, garantir a participação de todos, encaminhar decisões, distribuir responsabilidades, além de avaliar o que está sendo feito. Como indicam as experiências formativas, grande parte do êxito de uma reunião está na sua preparação e na capacidade de transformar debate em ação concreta. Essa dimensão organizativa dialoga diretamente com o que Ademar Bogo denomina de teoria da organização política: não há transformação social sem método, disciplina coletiva e clareza estratégica; a organização popular exige intencionalidade, continuidade e formação.

As cidades brasileiras são territórios de disputa permanente entre diferentes projetos: de um lado, a lógica do mercado e da especulação imobiliária; de outro, a luta pelo direito à cidade, à moradia digna e à permanência nos territórios. Nesse cenário, as lideranças comunitárias cumprem um papel essencial na articulação entre demandas locais e agendas mais amplas. São elas que denunciam violações, mobilizam moradores, dialogam com o poder público e constroem alternativas coletivas. A experiência em comunidades, por meio de iniciativas de Assistência Técnica em Habitação de Interesse Social (ATHIS), do projeto Periferia Viva, do programa de Agentes Educadoras e Educadores Populares de Saúde (AgPopSUS), evidencia que quando há organização, a comunidade deixa de ser apenas objeto de intervenção e passa a ser sujeito do processo.

Ser líder comunitário não é exercer autoridade, mas construir coletividade. É estimular a participação, formar novas lideranças e garantir que o conhecimento circule dentro do território. Os processos formativos desenvolvidos no campo popular demonstram que a formação política não acontece apenas em espaços formais, mas também nas reuniões, nas ações coletivas e nas experiências vividas. É nesse cotidiano que se constroem a consciência crítica e a capacidade organizativa. Assim, o líder comunitário é, antes de tudo, um educador popular.

Reafirmar o papel das lideranças comunitárias é, sobretudo, reafirmar a centralidade da organização popular na disputa pelas cidades. Sem organização, não há participação real. Sem participação, não há democracia substantiva. Fortalecer essas lideranças é ampliar a capacidade coletiva de enfrentar desigualdades e disputar rumos. E, como mostram as experiências nos territórios, organizar não é apenas uma tarefa — é condição para transformar a realidade.

* Jorge Edson Santos – Doutor em Geografia pelo Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Sergipe (PPGEO/UFS, 2026) e Coordenador Estadual do Movimento Organizado de Trabalhadoras e Trabalhadores Urbanos (MOTU) em Sergipe e Colaborador da Rede BrCidades;
* Dalva Angélica – Engenheira Florestal pela (UFS 2014), Coordenadora Estadual do MOTU em Sergipe e militante da Consulta Popular;
* Kelvyn Alves Rodrigues – Biólogo pela UFS, Coordenador Estadual do MOTU em Sergipe e militante da Consulta Popular.

A centralidade das lideranças comunitárias na disputa pelas cidades

Por Jorge Edson Santos, Dalva Angélica e Kelvyn Alves Rodrigues*
Da Carta Capital

Em contextos marcados por profundas desigualdades urbanas, o papel das lideranças comunitárias se impõe como um elemento central para compreender a dinâmica das cidades brasileiras. Mais do que uma dimensão simbólica, trata-se de reconhecer a atuação estratégica dessas lideranças na construção cotidiana dos territórios, especialmente nas periferias de Aracaju, capital de Sergipe, e de tantas outras regiões do País. A experiência acumulada no Movimento Organizado de Trabalhadoras e Trabalhadores Urbanos (MOTU), em diálogo com processos formativos e práticas territoriais, revela que a liderança comunitária não nasce pronta; é construída coletivamente, no cotidiano das lutas, na mediação de conflitos e, principalmente, na capacidade de organizar o povo para intervir na realidade. Mais do que representar demandas, liderar é criar condições para que a comunidade participe ativamente da definição de seus próprios rumos.

No campo urbano, a participação popular frequentemente aparece como princípio nos planos diretores, nas políticas públicas e nos discursos institucionais. No entanto, na prática, ela ainda é limitada, fragmentada ou meramente consultiva. A realidade dos territórios demonstra que participar exige organização. Não há participação efetiva sem base social estruturada, sem espaços de decisão coletiva e sem processos formativos contínuos. Como aponta Maria da Glória Gohn, os movimentos sociais têm papel fundamental na educação política da população, pois produzem saberes, constroem identidades coletivas e ampliam a capacidade de ação dos sujeitos no espaço público. Nesse sentido, a liderança comunitária atua como mediadora entre o cotidiano da população e os processos mais amplos de disputa por direitos.

A prática organizativa, como evidenciado nos processos formativos do MOTU, reforça que o trabalho de base é o elemento estruturante da ação popular. Reuniões, assembleias, visitas porta a porta e atividades comunitárias não são apenas instrumentos técnicos; são espaços de construção política. Saber organizar uma reunião, por exemplo, vai muito além de reunir pessoas em um mesmo espaço. Trata-se de definir objetivos claros, construir uma pauta, garantir a participação de todos, encaminhar decisões, distribuir responsabilidades, além de avaliar o que está sendo feito. Como indicam as experiências formativas, grande parte do êxito de uma reunião está na sua preparação e na capacidade de transformar debate em ação concreta. Essa dimensão organizativa dialoga diretamente com o que Ademar Bogo denomina de teoria da organização política: não há transformação social sem método, disciplina coletiva e clareza estratégica; a organização popular exige intencionalidade, continuidade e formação.

As cidades brasileiras são territórios de disputa permanente entre diferentes projetos: de um lado, a lógica do mercado e da especulação imobiliária; de outro, a luta pelo direito à cidade, à moradia digna e à permanência nos territórios. Nesse cenário, as lideranças comunitárias cumprem um papel essencial na articulação entre demandas locais e agendas mais amplas. São elas que denunciam violações, mobilizam moradores, dialogam com o poder público e constroem alternativas coletivas. A experiência em comunidades, por meio de iniciativas de Assistência Técnica em Habitação de Interesse Social (ATHIS), do projeto Periferia Viva, do programa de Agentes Educadoras e Educadores Populares de Saúde (AgPopSUS), evidencia que quando há organização, a comunidade deixa de ser apenas objeto de intervenção e passa a ser sujeito do processo.

Ser líder comunitário não é exercer autoridade, mas construir coletividade. É estimular a participação, formar novas lideranças e garantir que o conhecimento circule dentro do território. Os processos formativos desenvolvidos no campo popular demonstram que a formação política não acontece apenas em espaços formais, mas também nas reuniões, nas ações coletivas e nas experiências vividas. É nesse cotidiano que se constroem a consciência crítica e a capacidade organizativa. Assim, o líder comunitário é, antes de tudo, um educador popular.

Reafirmar o papel das lideranças comunitárias é, sobretudo, reafirmar a centralidade da organização popular na disputa pelas cidades. Sem organização, não há participação real. Sem participação, não há democracia substantiva. Fortalecer essas lideranças é ampliar a capacidade coletiva de enfrentar desigualdades e disputar rumos. E, como mostram as experiências nos territórios, organizar não é apenas uma tarefa — é condição para transformar a realidade.

* Jorge Edson Santos – Doutor em Geografia pelo Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Sergipe (PPGEO/UFS, 2026) e Coordenador Estadual do Movimento Organizado de Trabalhadoras e Trabalhadores Urbanos (MOTU) em Sergipe e Colaborador da Rede BrCidades;
* Dalva Angélica – Engenheira Florestal pela (UFS 2014), Coordenadora Estadual do MOTU em Sergipe e militante da Consulta Popular;
* Kelvyn Alves Rodrigues – Biólogo pela UFS, Coordenador Estadual do MOTU em Sergipe e militante da Consulta Popular.

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